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terça-feira, 28 de março de 2017

Batata yacon e a resistência à insulina


Texto original de Lissandra Bischoff

Ultimamente tenho visto muitas manchetes na mídia sobre a batata Yacon e seu efeito no controle da glicemia, tratamento de diabetes, redução dos níveis de insulina, etc., como por exemplo alguns trechos citados abaixo:
“Apelidada popularmente de ‘insulina natural’, a batata yacon ganhou destaque depois que pesquisadores da Universidade de Fukushima, no Japão, encontraram nela uma substância semelhante à insulina, capaz de reduzir as taxas de glicose no sangue. Esses estudos concluíram que o tubérculo, originário dos Andes, pode contribuir no tratamento de diabetes.”
“Uma pesquisa desenvolvida pela Universidade de Franca (UNIFRAN), em São Paulo, afirma que o consumo diário da batata yacon pode ajudar no controle da glicemia em portadores de diabetes tipo 2.”
“O chá de yacon é feito a partir das folhas da planta Smallanthus sonchifolius. Esta planta é originária da Cordilheira dos Andes, é a mesma planta que dá origem a batata yacon utilizada principalmente para o tratamento de diabetes. O chá de yacon também é utilizado para o mesmo objetivo: tratamento da diabetes e também para colesterol e para emagrecer.”

Assim, resolvi pesquisar para ver o que os estudos científicos dizem a respeito disso.

Mas, primeiro, vamos entender o que é a batata Yacon. A nutricionista Paula Mello (https://www.facebook.com/nutripaulamello) fez uma postagem recentemente sobre esse tubérculo:
“A batata yacon é oriunda da região Andina e, diferentemente das outras raízes e tubérculos (como batata, batata doce, mandioca, etc.) que armazenam bastante amido na polpa, a yacon possui pouco carboidrato em sua composição. O percentual de água das raízes gira em torno de 83 a 90% do seu peso bruto, o que faz com que o seu valor energético seja baixo.
A yacon tem em torno de 10g de carboidratos em 100g de alimento. Além disso, metade desses carboidratos são fibras do tipo FOS (frutoligossacarídeos) – ou seja, ela é bem lowcarb!
FOS são um tipo de fibra considerada prebiótica por servirem de ‘alimento’ a nossa flora bacteriana (auxiliam no crescimento das bactérias benéficas presentes em nosso cólon). Por isso, o consumo frequente de yacon pode auxiliar na melhora do trânsito intestinal e da saúde global (afinal já sabemos que uma flora bacteriana saudável nos ajuda inclusive a prevenir diversas doenças crônicas).
(...) para garantir ao máximo todos os benefícios dos FOS, eu indicaria consumi-la crua. Os FOS não são degradados durante a maioria dos processos de aquecimento, mas podem ser hidrolisados em frutose em condições muito ácidas e em condições de exposição prolongada a determinadas temperaturas por determinado tempo. Então melhor não arriscar.”
A batata yacon é, portanto, uma espécie de amido resistente, o que é bom, pois conforme escrito acima, esse tipo de amido serve de alimentos para as bactérias da nossa microbiota intestinal.
Mas quanto à questão do controle da glicemia, etc.?
Existe um estudo sobre isso, publicado em 2009 na revista Clinical Nutrition, chamado Yacon syrup: Beneficial effects on obesity and insulin resistance in humans (Xarope de yacon: efeitos benéficos na obesidade e na resistência à insulina em humanos) - https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/19254816. Trata-se de um estudo duplo-cego controlado com placebo.
O estudo foi desenhado da seguinte maneira:
Foram recrutadas 55 mulheres das quais 35 completaram o estudo com boa adesão). Os critérios de recrutamento foram:
- idade entre 31 e 49 anos;
- sem distúrbios da menopausa;
- com obesidade;
- com dislipidemia leve; e
- com histórico de constipação.
Foram excluídos do estudo as pessoas com: insuficiência hepática ou renal, doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes Mellitus ou pacientes com hiperlipidemia grave.
Os indivíduos foram estudados durante um período de 120 dias num experimento duplo-cego controlado com placebo. Os pacientes foram distribuídos aleatoriamente em três grupos. O grupo 1 recebeu xarope de yacon contendo um nível de ingestão de 0,29 g de FOS / kg de peso corporal / dia; O grupo 2 recebeu um nível de ingestão de 0,14 g FOS / kg de peso corporal / dia, e o grupo 3 recebeu o xarope placebo.
Os indivíduos foram instruídos a consumir o xarope 1 h antes das refeições. A ingestão do xarope contendo yacon ou placebo foi dividida ao longo do dia – meia dose após o café da manhã e outra após o jantar.
Durante o período experimental, os indivíduos mantiveram uma dieta hipocalórica (a ingestão calórica diária foi de 25 a 30 kcal/kg de peso corporal) com 50% de carboidratos, 30% de gordura, 15% de proteína 15% e 10 g fibra dietética/dia. Todos os pacientes excluíram produtos alimentares contendo grandes quantidades de FOS, como cebola e alho poró de sua dieta. Eles foram instruídos a manter o seu estilo de vida habitual com atividade física moderada (45 min caminhadas duas vezes por semana). Nenhum dos indivíduos usou medicação ao longo do estudo.
No início e no final do estudo foram verificadas as medidas antropométricas, as concentrações de glicose, cálcio, lipídios e insulina e o Índice Homa dos participantes.
Resultados:
O consumo a longo prazo de xarope de yacon levou a uma diminuição significativa do peso corporal, com uma importante redução na circunferência da cintura. O IMC (Índice da massa Corporal) também mostrou uma diminuição acentuada no grupo tratado. Estes efeitos não foram observados no grupo de controlo (placebo).
Durante o período de intervenção, não foi encontrado qualquer efeito sobre o nível de glicose. Por outro lado, observou-se um efeito importante nos valores de insulina em jejum e HOMA-IR, uma ferramenta útil para a medição da sensibilidade à insulina. No início do estudo todas as mulheres tinham valores anormais de HOMA-IR (corte = 2,70) e níveis elevados de insulina em jejum. Após 120 dias de tratamento com xarope de yacon, ambos os parâmetros diminuíram significativamente em comparação com os valores antes do tratamento. Não houve alterações no grupo placebo.
Para se ter ideia das alterações, trago alguns números do estudo para comparação:
A insulina basal média no grupo do xarope de yacon antes do experimento era 12,6. Após o experimento baixou para 7,3. O valor médio de Homa-IR no grupo do xarope de yacon antes do experimento era 6,30 (o que indica resistência à insulina). Após o experimento baixou para 2,07 (ficando abaixo do ponto de corte 2,7, ou seja, as mulheres desse grupo não estavam mais classificadas na faixa de resistência à insulina após o experimento).
O estudo mostra, ainda, que não houve alterações significativas nos níveis de colesterol total ou triglicerídeos. No entanto, no nível de ingestão testado, o consumo de xarope de yacon levou a uma diminuição significativa nos níveis de colesterol LDL em comparação com os de antes do tratamento, enquanto os valores permaneceram inalterados no grupo placebo. Os valores de HDL-colesterol não foram afetados pelo tratamento. Foi observado um efeito positivo significativo na concentração de cálcio no sangue, que não foi observado no grupo placebo.
Vemos, portanto, que o experimento mostrou benefícios do uso do xarope de yacon para esse grupo de mulheres em relação ao quesito “resistência à insulina”, reduzindo o nível de insulina basal e levando o índice Homa-IR para os níveis de normalidade. No entanto, fica claro no próprio estudo que não houve avaliação de pacientes diabéticos, portanto não é possível extrapolar os dados deste estudo e afirmar que os benefícios se estendem aos pacientes diabéticos. Além disso, este estudo não encontrou alteração significativa nos níveis de glicose dos participantes.
Não encontrei a publicação do outro estudo realizado no Brasil, pela Universidade de Franca (UNIFRAN), em São Paulo. Mas encontrei o texto desse estudo divulgado por uma das suas autoras (Valine Borges da Penha) numa página da internet.
Estudo de Caso: Batata Yacon e o Diabetes tipo 2
Participaram deste estudo de caso, dois indivíduos sendo um do sexo feminino (indivíduo F) e outro do sexo masculino (indivíduo M), ambos portadores do diabetes tipo 2. Estes pacientes foram submetidos a um exame inicial de glicemia e, durante o período de 28 dias, os indivíduos fizeram uso de 50 gramas/dia de batata Yacon, que foi ingerida na colação, associada a uma dieta (no texto não há informações sobre o tipo de dieta que foi administrada aos pacientes).
Ao final dos 28 dias de tratamento com a dieta e a batata Yacon, ambos os pacientes foram submetidos a um novo exame de glicemia, a fim de comparar os níveis glicêmicos atuais com os anteriores.
Segundo o texto do estudo, a redução dos níveis de glicemia para o indivíduo F foi menor do que para o indivíduo M. O indivíduo F apresentou uma redução de 7,09% na glicemia, enquanto o indivíduo M apresentou redução de 27,74%. Segundo o texto, “essa diferença pode ser atribuída a não adesão completa da dieta do indivíduo F, uma vez que não houve mudanças na sua rotina alimentar, e sendo realizada apenas a ingestão da batata Yacon no período determinado”. O texto fala também que o paciente F apresentou episódios de mal estar, onde foi necessário acrescentar mais um tipo de alimento no período da colação paralelo a batata. Além disso, o indivíduo F apresentou sobrepeso durante todo o tratamento e não houve alterações de peso.
Com base nessas informações parece claro que não foi apenas a batata yacon que foi responsável pelos resultados do indivíduo do sexo masculino, mas pode ter havido uma grande influência da dieta (que não sabemos exatamente qual foi). O indivíduo do sexo feminino, que apenas acrescentou a batata yacon sem fazer maiores mudanças nos seus hábitos alimentares, apresentou uma redução modesta na glicemia, de 7,09% (sendo que não foi informado no texto se essa redução foi estatisticamente significante ou não).
A partir desses dados, o que temos de concreto, então, é o que foi apresentado no estudo controlado duplo cego de 2009:
“A ingestão diária de xarope de yacon produziu uma diminuição significativa no peso corporal, na circunferência da cintura e no índice de massa corporal. Adicionalmente, observou-se diminuição da insulina em jejum e do Índice Homa. O consumo de xarope de yacon aumentou a frequência de defecação e a sensação de saciedade. A glicose em jejum e os lípidos séricos não foram afetados pelo tratamento com xarope e o único efeito positivo foi encontrado nos níveis séricos de LDL-colesterol.”
Alguns estudos anteriores com ratos mostraram uma redução do nível de glicemia, enquanto outros mostraram não haver esse efeito (por exemplo: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pmc/articles/PMC3671746/; https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/28161878; https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/11167030: https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/22963080; https://www.ncbi.nlm.nih.gov/pubmed/15979774)
Todavia, os efeitos de redução da glicemia não se confirmaram no estudo clínico controlado com humanos. Diante disso, não podemos extrapolar esses dados afirmando que a batata yacon tem efeitos sobre a glicemia ou controle do diabetes.
Quanto ao uso de chás feitos com folhas de yacon, há um estudo da Universidade de São Paulo (USP) de 2011, alertando para a possível toxicidade do extrato de folhas de yacon preparadas como infusão de chá. De acordo com o estudo (http://www.producao.usp.br/handle/BDPI/20122):
“Yacon (...) tem sido tradicionalmente utilizada como uma planta antidiabética em vários países do mundo, incluindo o Brasil. A sua ação hipoglicêmica foi recentemente demonstrada em ratos normais e diabéticos. No entanto, faltam estudos sobre a segurança do consumo oral prolongado de extratos de folha de yacon.”
Conclusões do estudo:
“O dano renal foi associado ao aumento dos níveis de glicose no sangue após administração oral prolongada do AE [aqueous extract]. Esta observação sugeriu que o efeito hipoglicêmico observado após tratamento durante 30 dias num estudo anterior é reversível e foi provavelmente o resultado de lesão renal causada pela toxicidade de yacon. Devido a STLs foram detectados em ambos os AE [aqueous extract] e LRE [leaf-rinse extract], há fortes indícios de que estes terpenóides são os principais compostos tóxicos nas folhas do yacon. Com base nos nossos resultados, não recomendamos o uso oral de folhas de yacon para o tratamento da diabetes.”
Nos testes realizados com ratos, os animais foram submetidos a regimes de doses repetidas por um período de 90 dias. Os resultados revelaram que o chá das folhas da planta causou lesão renal nos animais. “A dose que lesionou os ratos equivale a três xícaras de chá consumidas diariamente por um humano de aproximadamente 70 quilos”, estima Rejane Barbosa de Oliveira, autora da tese de doutorado Atividades antidiabética, anti-inflamatória e toxicologia do yacón (Smallanthus sonchifolius [Poepp. & Endl.] H. Robinson – Asteraceae).
Mesmo que alguns trabalhos científicos tenham demonstrado que o chá era realmente capaz de diminuir a glicose sanguínea em ratos e camundongos diabéticos e tendo sido comprovada a ausência de toxicidade após o consumo das raízes, não existiam, segundo Rejane, trabalhos sobre a segurança do consumo do chá das folhas do yacón. “O perigo da toxicidade decorrente do consumo do chá das folhas era bastante provável, visto que as folhas, e não as raízes, possuem substâncias denominadas lactonas sesquiterpênicas, que geralmente são altamente tóxicas para animais, incluindo os humanos”, descreve Rejane.
Portanto, fica o alerta. Se você pensa em fazer deste tipo de alimento para fins medicinais, busque orientação adequada.
Não há evidências científicas, em humanos, que a batata yacon, consumida in natura, realmente reduza a glicemia em pacientes diabéticos. Conforme percebido nos resultados conduzidos no Brasil, a batata por si só, quando consumida fora de um contexto de uma dieta orientada para o paciente, não parece produzir o resultado esperado.
Já o estudo controlado, conduzido na Argentina, que mostrou redução nos níveis de insulina, não foi realizado com a ingestão da batata yacon in natura, mas sim com xarope de yacon (que é a forma concentrada do produto). Não se sabe qual a quantidade de batata in natura seria necessário consumir na dieta de uma pessoa para ter um efeito semelhante ao verificado no estudo.


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2 comentários:

  1. A yacon é um vegetal saboroso (tem um gosto de terra mas nada grave), mas não vai me salvar do diabetes, é isso?

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    1. A batata yacon tem sido "vendida" como um alimento miraculoso. Parece realmente ser um tubérculo bem interessante, uma vez que alimenta as bactérias da microbiota intestinal. No entanto, a batata yacon sozinha não faz milagres. Os estudos mostram isso. Mas em conjunto com uma estratégia alimentar correta, pode ser benéfica.

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